01. O senhor está coordenando o Global Fórum América Latina, que tratará do desenvolvimento
sustentável e a relação deste tema com os negócios e a academia. Poderia nos falar um pouco mais
sobre o evento?
Rodrigo da Rocha Loures - O Global Fórum América Latina acontece em Curitiba,
entre 18 e 20 de junho. Vai reunir empresários, academia e a sociedade para promover o debate, identificar áreas
de cooperação e provocar uma chamada para ações conjuntas efetivas em favor do desenvolvimento
sustentável. Seu pressuposto básico é de que se faz necessária uma mudança fundamental
na cultura, sistemas e processos que impactam na formação acadêmica dos nossos futuros líderes.
Os desafios da sustentabilidade, da globalização e da velocidade de inovação tecnológica,
entre outros fatores, estão levando as instituições de ensino superior de administração
a repensar seus modelos. Isso já é uma realidade nas universidades americanas e européias que sob o patrocínio
do Global Compact e da Academy of Management iniciaram o diálogo com o mundo dos negócios e a sociedade para
a construção de uma nova visão de educação num movimento chamado BAWB - Global Fórum
www.bawbglobalforum.org (BAWB é o acrônimo de Business as na Agent of World Benefit, programa educacional da
Case Western University de Cleveland- Ohio). Lançado em 2006, seu propósito é o de sustentar uma pesquisa
permanente de como fazer uma educação em gestão com significado, da qual as empresas possam se beneficiar,
gerando lucros e simultaneamente trabalhando pelo bem da humanidade.
02. Quais os objetivos e a visão de sustentabilidade do Global Fórum?
Rodrigo da Rocha Loures - O objetivo do Global Fórum América Latina é o de
promover uma reflexão compartilhada quanto a formas de proporcionar aos estudantes valores e instrumentos que os tornem
aptos a agirem de acordo com os requisitos da sustentabilidade. Negócios sustentáveis são aqueles em
que estão presentes e atuantes competências capazes de no mínimo criar valor econômico-financeiro
sem causar danos seja ao meio ambiente seja a terceiros. Num plano mais alto podemos ir além disso - fazer com que
o próprio negócio faça bem para o mundo na medida que é capaz de atender uma necessidade, gerar
lucro e simultaneamente causar um impacto positivo nas dimensões sócio- ambiental e política. Peter Drucker,
o maior pensador no campo de administração em todos os tempos, costumava afirmar que todos os problemas que
existem no planeta devem ser vistos como oportunidades de novos negócios. Para ele, para enxergar por este prisma é
preciso quebrar paradigmas nos processos de educação.
03. Quais são os resultados e desdobramentos esperados a partir do Global Fórum América Latina?
Rodrigo da Rocha Loures - São quatro os principais resultados esperados . Primeiro - a produção
de conhecimento significativo para responder com sucesso ao imperativo de desenvolvimento sustentável. Segundo -
desenvolver a capacidade de cooperação estratégica entre as comunidades empresarial e academica, e destas
com o setor público e a sociedade em geral. Terceiro - a temática central do Global Forum passar a fazer parte
da agenda estratégica da educação corporativa . Quarto - as autoridades educacionais passarem a conceder
atenção apropriada à educação na área de gestão.
Quanto aos desdobramentos, visualizo que este primeiro encontro em Curitiba vai instalar um processo consistente e contínuo
de aprendizagem compartilhada voltada para o aprimoramento da educação superior para a sustentabilidade. Encontros
como este vão se multiplicar pelo país e pelo continente latino-americano. Versões virtuais vão
surgir na internet através de fóruns digitais auto-organizados e auto-gerenciados. As vozes brasileira e latino-americana
vão participar ativamente do processo de reconceitualização dos sistemas de educação nas
área de gestão e organização.
04. Como será dividida a programação do evento?
Rodrigo da Rocha Loures - O evento acontecerá ao longo de três dias. Teremos palestras
inspiradoras, apresentações de papers enviados por professores universitários e de cases empresariais.
Seu diferencial serão os dois dias de oficinas para construção de conhecimento significativo entre os
participantes do encontro. A metodologia de trabalho será o diálogo em pequenos grupos, estimulado por perguntas
pertinentes ao encontro. Desta forma todas as vozes poderão ser ouvidas. Informações e percepções
trocadas. O sucesso científico está garantido pelo trabalho em equipe de professores da EAESP-FGV, Case Western
University ( Cleveland-Ohio), PUC-PR e Universidade Federal do Paraná, com o apoio da Unindus ? Universidade Corporativa
da Indústria.
05. Quais os palestrantes confirmados para este encontro internacional?
Rodrigo da Rocha Loures - Temos a confirmação do professor Ram Charan, primeiro indiano
a dar aulas na Harvard Business School e reconhecido internacionalmente como um dos maiores experts em governança corporativa
e em gestão estratégica. O professor e pesquisador de sistemas organizacionais Ronald Fry, da Case Western University
também está confirmado. Teremos importantes participações como as de Juan Urrutia, da Sociedad
de las Indias Electrónicas e do BBVA - Banco Bilbao Vizcaya, de Jorge Guimarães, presidente da CAPES - Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, de Carlos Osmar Bertero, presidente da ANPAD - Associação
Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Administração, de Antonio de Araújo Freitas,
da ANGRAD - Associação Nacional de Graduação, de Oscar Motomura, da Amana-Key, de Ricardo Young,
do Instituto ETHOS, e de Hector Nuñez, do Wal-Mart Brasil.
06. A organização conta com empresas parceiras e apoiadoras?
Rodrigo da Rocha Loures - A proposta do Global Forum tem invariavelmente obtido ampla receptividade
junto às comunidades empresariais e acadêmicas no mundo inteiro. No Brasil, a iniciativa é da FIEP - Federação
das Indústrias do Paraná, com o apoio da CNI -Confederação Nacional da Indústria e suporte
conjunto da EAESP-FGV e da Case University. Para esta primeira edição da América Latina o Global Forum
conta com o apoio de instituições relevantes do mundo acadêmico como a Angrad, Anpad, Cladea, Capes e
do Instituto Ethos, assim como de inúmeras universidades, empresas, autoridades da área de educação,
mídia e do público em geral.
07. Como a indústria hoje está vendo a formação dos jovens profissionais que chegam ao
mercado? Eles estão preparados para o mundo corporativo?
Rodrigo da Rocha Loures - Os egressos das universidades, especialmente os da área de
administração, tem se norteado para especializações e busca do domínio de técnicas.
Isto certamente corresponde ao que é sinalizado pela cultura, conteúdo e atividades que prevalecem no ambiente
escolar. O reposicionamento requerido do mundo empresarial e a complexidade e dinamismo crescentes dos mercados requer profissionais
com atitude e métodos diverso- visão sistêmica, habilidades de liderança e inovação,
sensibilidade social e política. Profissionais com este perfil não estão saindo das escolas.
Quando quinhentos CEOs do mundo inteiro se encontraram em julho de 2004 por dois dias, em Nova Iorque à convite do
secretario geral da ONU Kofi Annan para formular o plano de desenvolvimento do Global Compact, uma das ações
estratégicas aprovada foi a de se promover uma revisão de profundidade no sistema de educação
superior de gestão de negócios. Em outubro de 2006 , correspondendo a esta diretriz aconteceu por quatro dias
o encontro de Cleveland- Ohio. Nesta ocasião personalidades como C.K.Prahalad, University of Michigan, Patrick Cescau,
CEO da Unilever, Manuel Escudero, ONU, juntamente com quatrocentas lideranças empresariais e acadêmicas de quarenta
países chegaram ao consenso de que é preciso repensar a formação acadêmica dos nossos futuros
executivos, propondo um conjunto de ações para facilitar este processo, uma das quais é o Global Fórum
América Latina que ora estamos organizando.
A velocidade das mudanças no campo corporativo está em contínua aceleração. Os conteúdos
e formatos dos sistemas de educação ficam, naturalmente, defasados em relação às necessidades
gerais da sociedade e específicas das organizações. O papel do Global Fórum é colaborar
para a identificação de maneiras de reduzir e mesmo sanar esta defasagem.
O grande desafio é alcançar uma relação de interatividade entre as esferas empresarial e acadêmica,
e destas com o contexto global, de tal sorte que o imperativo de sustentabilidade seja o referencial central e permanente
a balizar atitudes, métodos, sistemas e processos educacionais formais e informais, objetivos e subjetivos, visíveis
e invisíveis que impactam a produção e transmissão de conhecimento em gestão, para que
esta profissão se coloque em sintonia com o imperativo de obter rentabilidade contribuindo de forma ampla e sustentável
para a qualidade de vida e da vida no planeta.
08. Como o desenvolvimento sustentável está sendo tratado na Federação das Indústrias
do Paraná?
Rodrigo da Rocha Loures - O tema sustentabilidade passou a permear todas as atividades da Federação
nos últimos anos. As duas idéias-força que norteiam as ações do nosso sistema são
o Desenvolvimento Industrial Sustentável e a Educação para a Nova Indústria. Como conseqüência
desta visão, temos diversos programas articulados a quatro dimensões de atuação concomitante,
quais sejam: dimensão individual - um novo estilo de liderança conectado com o todo, com visão de conjunto
e pautado por relações conscientes; dimensão organizacional - novos modelos de organização
mais ágeis e flexíveis, amigáveis à inovação e favorecedoras do desenvolvimento
das pessoas no local de trabalho; dimensão cultural - novo imaginário coletivo indutor de agendas positivas
para evolução política, econômica, tecnológica e social; e, monitoramento - um sistema apropriado
de produção e comunicação de indicadores de sustentabilidade para propiciar informações
estratégicas a todos os atores sociais e monitorar o progresso de iniciativas.
Como meio de aprendizagem organizacional, promovemos no Paraná três edições do BAWB (Business as
Agent of Word Benefit) e apoiamos outras duas em Fortaleza e Vitória, Para estimular o imaginário coletivo,
organizamos juntamente com outras entidades empresariais o projeto chamado Fórum Futuro 10 Paraná, que mobilizando
mais de cinco mil lideres de todos os setores e regiões, traçou um mapa consistente para o desenvolvimento paranaense.
Para contemplar o desenvolvimento social promovemos o movimento Nós Podemos Paraná, que mobiliza mais de treze
mil lideres visando antecipar para 2010 os objetivos do milênio estabelecidos pela ONU previstos para 2015.
Para dar suporte a estas iniciativas instalamos o Conselho de Cidadania Empresarial e lançamos a Rede de Participação
Política do Empresariado www.redeempresarial.org.br , uma vez que entendemos que não se pode dissociar a responsabilidade
social e ambiental da responsabilidade política.
Para apoiar a pesquisa e desenvolvimento de um novo estilo de liderança instalamos a Universidade da Indústria
(www.unindus.org.br) para atuar como agente catalizador de copmpetências em programas de capacitação de
gestão.
Para propiciar monitoramento instalamos um observatório para medir resultados e avaliar indicadores de sustentabilidade,
o Orbis (www.orbis.org.br).
Desta forma estamos contemplado simultaneamente as quatro dimensões que acreditamos concorrem para aprendizagem da
sustentabilidade.
9. Para descontrair: qual o maior desafio de um homem ? dirigir uma empresa ou encarar uma sala de aula com 40 alunos?
Rodrigo da Rocha Loures - Realizar qualquer das duas tarefas com qualidade requer muita atenção
e dedicação. São trabalhos igualmente complexos, mas muito prazerosos e gratificantes.
10. Sente saudade da carreira de docente? Não pretende voltar a ministrar aulas?
Rodrigo da Rocha Loures - Tenho saudades da sala de aula, das atividades e do ambiente universitário.
Formei-me em 1967 na EAESP-FGV. No ano seguinte instigado por meu pai, que era professor universitário, me propus e
fui contratado para ser professor no curso de administração da Universidade Federal do Paraná. Eu já
era casado, tinha 25 anos e um filho de colo. O curso estava recém instalado.
Quando cheguei sua primeira turma estava começando o segundo ano e demandando disciplinas para as quais não
havia professores. Na ocasião eu era o único membro do corpo docente que havia cursado um programa estruturado
de administração. Por isto logo de início, e em regime emergencial, fui requisitado a atender as turmas
do primeiro e do segundo ano, tendo de dar diversas matérias para cobrir a lacuna de professores. Com o tempo fui obtendo
o apoio de professores da EAESP-FGV que passaram a vir sistematicamente a Curitiba para dar aulas e ajudar na seleção
de professores para a FAE / UFPR. Em 1969 fui desafiado a colocar o "ovo de pé", fui designado diretor
do colegiado de administração.
Além de preparar e dar aulas em diversas disciplinas - administração geral, mercadologia, relações
industriais, direito empresarial - passei a formalmente conduzir o processo de organização e gestão geral
do curso de administração.
Em 1971 concluímos seu modelo organizacional e a formação de um quadro próprio de professores
que foi o núcleo desta faculdade que hoje alinha-se entre as mais conceituadas do Brasil. Em 1972 por razões
empresariais mudei para São Paulo. Naquela ocasião o então diretor da EAESP, o saudoso Professor Gustavo
de Sá e Silva convidou-me para eu prosseguir a carreira com eles. Infelizmente não pude aceitar o convite devido
às exigências do projeto empresarial em que eu estava engajado. Assim tive de encerrar minha curta porem profunda
passagem pelo magistério. Foi uma experiência de valor inestimável. Uma época de ouro. No entanto,
meu compromisso com a causa da educação mantém-se mais forte e consciente do que nunca.
Hoje contribuo patrocinando a aquisição e transmissão de conhecimento por outras formas. O aprendizado
daqueles tempos esta na raiz de toda minha jornada subsequente. Agradeço ao meu inesquecível pai por ter me
induzido a trilhar aquele caminho, à minha querida mulher pela compreensão com aquela fase de trabalho tão
intenso, e a Deus por propiciar oportunidade e inspiração para eu enfrentar com sucesso aqueles desafios que
tanto favoreceram o meu desenvolvimento pessoal.
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