Estudiosos propõem, no Global Fórum, transformações no âmbito das empresas, universidades
e sociedade para a implementação do conceito
A transformação no nível pessoal é essencial para a implementação do conceito da
sustentabilidade no mundo dos negócios e na academia. Houve uma mudança de paradigma na consciência socioambiental
brasileira, mas ocorreu no nível mais alto da intelectualidade nacional. Agora é preciso fazer migrar o conceito
da sustentabilidade para as demais camadas da sociedade.
Esta foi a tônica do diálogo Alianças Estratégicas entre empresas, universidades e sociedade que
reuniu estudiosos na manhã desta quinta-feira (19) no Global Forum América Latina. O evento reúne 1.100
pessoas entre empresários, acadêmicos, representantes do poder público e da sociedade civil e discute
a educação para os negócios com foco na sustentabilidade.
"O grande desafio é saber como vamos operar essa transformação", disse Ricardo Young, presidente
do Instituto Ethos. O presidente do Sistema Fiep, Rodrigo da Rocha Loures, afirmou que o encontro vai servir de âncora
para construir uma nova visão sobre a gestão das universidades. "O bom funcionamento da sociedade vai depender
da qualidade com que os nossos jovens saírem das universidades", declarou Rocha Loures. O Global Forum América
Latina é uma iniciativa do Sistema Fiep, através da Unindus, com apoio do Sesi.
De acordo com o presidente do Instituto Ethos, o panorama atual é contraditório. As organizações
estão entendendo que devem ser espaços de aprendizagem permanentes. As universidades fazem reflexão e
concluem que devem formar gente para o mercado. "Daí, temos um diálogo de surdo e mudo", afirmou.
Segundo Young, o ponto mais importante do processo de aprendizagem é o combate à fragmentação
do conhecimento. Ele citou a pesquisa realizada pelos especialistas Peter Sengg, Otto Scharmer e Jawroski, junto a dezenas
de executivos de empresas, sobre o que os fizeram líderes de sucesso.
"A resposta recorrente dos participantes da pesquisa foi surpreendente. O que eles consideravam como fatores de sucesso
eram aspectos profundamente pessoais", contou Young. A experiência da pesquisa foi sistematizada pelos autores,
dando origem à "Teoria U", cujo princípio é que o processo de aprendizado se dá com
níveis diferentes de diálogo, com introspecção e aplicação da reflexão em
projetos inovadores.
"A teoria demonstra que estamos na iminência de um novo tipo de líder, que tem capacidade de aprender, introspectar,
desafiar seus próprios conceitos e ousar na criatividade, tornando-se um transformador da realidade. Está decretada
a falência do líder herói, especialista, setorial. A sociedade clama por lideranças com capacidade
de olhar acima e além do interesse pessoal, da sua organização e ou do seu setor. Esse tipo de liderança
é urgente, necessária e é esse o desafio que temos pela frente", concluiu Young.
Disseminação em toda a sociedade - Em sua exposição, a publicitária
Christina Carvalho Pinto, diretora-geral e apresentadora do programa de TV Mercado Ético, defendeu a disseminação
do conceito em todas as camadas da sociedade. "Hoje, existe uma elite consciente. Precisamos levar a expansão
da consciência sustentável para todas as faixas sociais e etárias da nossa sociedade. Quem vai fazer isso?",
questionou. Para ela, esta transformação tem que ser individual. "É preciso fazer perguntas a si
mesmo. O que eu gostaria de ser e fazer neste processo? Onde estão os meus valores? Este é o verdadeiro processo
de reconstrução da vida", afirmou a publicitária.
Perspectiva de estadista - O fundador e principal executivo do Grupo Amana-Key, centro de excelência
em gestão de alcance mundial, Oscar Motomura, disse que todo líder precisa olhar as coisas com uma perspectiva
de estadista. "As pessoas devem subir no helicóptero e ver a conexão de seu departamento com a empresa,
de sua empresa com a sociedade e, numa perspectiva mais ampla, ver a empresa sob o prisma do planeta", considerou Motomura.
De acordo com ele, as discussões e o movimento acerca da sustentabilidade são produtos da interconexão
de indivíduos. "Não existe nada mais poderoso que a iniciativa das pessoas. São elas as responsáveis
por acelerarem e serem catalisadores de mudanças", declarou. Para Motomura, cada pequeno ato deve contribuir para
a sustentabilidade. "É preciso que cada um faça a sua parte. O lado negativo, entretanto, é quando
as pessoas acham que já fizeram o bastante e deixam o restante do trabalho para os outros", observou, ressaltando
que muitas pessoas fazem coisas contra a sustentabilidade não por mal mas pelo analfabetismo ecológico, por
não saberem que "o ato até pode ser pequeno, mas a intenção é muito grande".
Educação é a chave - O economista e educador Cláudio de Moura Castro, presidente
do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, relatou casos em que a chave para o alcance da sustentabilidade é
a educação. As situações relatadas pelo educador expuseram as contradições entre
um ambiente cuja ação conjunta provoca resultados positivos para toda a comunidade ? no caso, uma coleta de
lixo coletiva por uma comunidade suíça ? e outro em que a desinformação resulta no agravamento
de um problema social ? uma escola rural recém-construída em Minas Gerais que não tinha fossa séptica,
despejando seus dejetos num córrego próximo.
"É preciso que haja informação e conhecimento. Sem isso, não se dá um passo à
frente", completou. Para Moura Castro, a situação brasileira expõe a falta de disseminação
do conhecimento básico, de que a qualidade da água é mais importante para a diminuição
da mortalidade infantil do que a construção de um hospital, enquanto o episódio europeu demonstra o empreendimento
de uma ação pelo benefício coletivo: "É uma iniciativa que não beneficia aqueles que
a tomaram." O educador enfatizou ainda a necessidade de trilhar todo o percurso da educação para se atingir
um benefício conjunto. "Não é possível pular etapas", finalizou.
Demanda da Indústria - "A academia pode produzir inovação e conhecimento focados
na gestão sustentável, mas a indústria precisa demandar essa necessidade para que o trabalho seja mais
efetivo", considerou o coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio
Vargas, Mario Monzoni.
Representando a academia, Monzoni destacou a importância do evento para a universalização do tema. "O
primeiro passo a ser dado é a percepção de que precisamos ter consciência da necessidade de mudança
da visão individualista, para repensarmos o coletivo", disse, relatando um exemplo da FGV. "O trabalho de
disseminação da sustentabilidade na FGV ainda precisa ser feito com mais veemência, a começar pela
integração de todos os departamentos em torno das ações sustentáveis."
De acordo com o especialista, mesmo a percepção por conveniência da importância do conceito pode
ser a porta de entrada para a sustentabilidade. "Houve o caso de um banco que precisava dos trabalhos da Fundação,
mas só aceitaria a proposta que tivesse módulo em sustentabilidade. O departamento responsável, portanto,
teve que buscar a gestão para atender ao cliente", contou.
A mudança da educação para que tenha como foco a sustentabilidade, pode ser feita com a introdução
de uma nova metodologia, baseada não mais na arrogância ou na sabedoria de um só. "É preciso
proporcionar que a academia forme gestores com a percepção de que se pode formar algo mais valioso no futuro,
repensando o coletivo", concluiu Monzoni.
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