Economia

Agro lidera recuperações judiciais no 1º semestre: 1.263 CNPJs

ResumoO agronegócio registrou 1.263 CNPJs em recuperação judicial no primeiro semestre, liderando o ranking nacional. A crise financeira do setor decorre de juros altos e crédito restrito, não de quebras de safra. Colheitas robustas não evitam o aperto de caixa dos produtores.

O agronegócio liderou as recuperações judiciais no primeiro semestre, com 1.263 CNPJs em dificuldades. A crise é financeira, não de safra: juros altos e crédito restrito apertam o caixa mesmo com colheitas robustas.

Helena Drumond
Helena Drumond Analista de criptoativos e fintechs · 07 de agosto de 2026
De consultoria a plataforma: R$ 500 milhões da Ludfor em ene

O agro quebra mais que qualquer outro setor, e não é por causa da safra

O agronegócio entrou no centro da crise financeira brasileira. No primeiro semestre de 2026, o setor liderou o número de recuperações judiciais (RJ) no país, totalizando 1.263 CNPJs em dificuldades. Foram 111 novas entradas só no segundo trimestre, 9,6% a mais que o anterior. Nos primeiros seis meses, o crescimento chegou a 21,4%, somando 66% de alta em 12 meses. É o pior desempenho relativo e absoluto do período, segundo o Monitor RGF-Bizdoc.

Não é uma crise de produção. A safra segue robusta. O problema é financeiro: capital de giro intensivo, juros elevados, oscilação dos preços internacionais das commodities e eventos climáticos reduziram a capacidade de muitos produtores honrarem compromissos, mesmo com boas colheitas. A gente separa a tecnologia do hype, e aqui separamos a safra do caixa.

Por que o agro quebra mais que outros setores

A combinação de fatores é específica do campo. O agronegócio exige capital de giro intensivo para plantar, manter a operação e escoar a produção. Com juros altos, o custo desse financiamento dispara. As oscilações dos preços internacionais das commodities e os eventos climáticos apertam ainda mais a margem. Resultado: produtores com boa colheita, mas sem fluxo de caixa para pagar dívidas.

Segundo a consultoria, as recuperações judiciais como um todo seguem em níveis historicamente elevados no Brasil. Mas a crise do agro ganhou nova configuração em 2026, concentrando a maior deterioração financeira entre os principais setores da economia.

Recuperações judiciais no Brasil: estoque recorde

O país encerrou o primeiro semestre com 6.341 empresas em recuperação judicial no recorte restrito da pesquisa, formado pelas companhias de maior relevância econômica. O estoque permanece no maior nível da série histórica, com crescimento de 6,2% em relação ao fim de 2025 e alta acumulada de 21,2% em 12 meses.

Junho trouxe um alívio pontual: queda líquida de 172 empresas, a primeira redução mensal relevante desde o início da série. A consultoria RGF interpreta o dado com cautela. Um único mês não caracteriza mudança estrutural. A economia ainda convive com crédito restritivo e muitas empresas pagam mais juros do que conseguem gerar de caixa.

Comércio lidera em número absoluto

Embora o agro tenha a pior evolução relativa, o comércio concentra o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial. São 1.649 companhias, alta de 22% em 12 meses. A indústria de transformação vem na sequência, com 1.455 empresas, e a construção soma 1.102 processos.

O transporte e a logística chamam atenção: crescimento de 24% em 12 meses, refletindo o aumento do custo financeiro, a pressão sobre combustíveis e a desaceleração econômica.

Indústria de transformação: margens estreitas e financiamento caro

Na indústria de transformação, o estudo aponta que margens mais estreitas e financiamento caro seguem como principal fator por trás do aumento das recuperações judiciais. Os segmentos mais afetados são confecções, usinas de açúcar e fabricantes de embalagens.

Perfil das empresas em recuperação: grandes seguem mais vulneráveis

O levantamento identifica uma transformação no perfil das empresas em dificuldades. Grandes grupos passaram a recorrer com mais frequência às recuperações extrajudiciais. Micro e pequenas empresas também aumentaram o uso da recuperação judicial, impulsionadas pelo encarecimento do crédito e pela compressão das margens.

Proporcionalmente, porém, as grandes continuam mais vulneráveis. A incidência de RJ chega a 17,4 empresas por mil entre companhias de muito grande porte, contra 0,07 por mil entre microempresas. A explicação: pequenas empresas frequentemente encerram as atividades sem recorrer ao processo judicial, enquanto grandes corporações usam a recuperação para reorganizar dívidas complexas.

Juros altos: o motor da crise

Para os responsáveis pelo estudo, a principal explicação para o elevado número de recuperações é o custo do dinheiro. Embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo de redução da Selic, o relatório calcula que o juro real permanece próximo de 9% ao ano, um dos mais altos do mundo. Nesse ambiente, empresas endividadas comprometem parcela significativa do caixa apenas com despesas financeiras.

Os efeitos positivos da queda dos juros costumam demorar entre 12 e 18 meses para aparecer nas estatísticas de insolvência. A expectativa é que o número de recuperações permaneça elevado durante o restante de 2026, ainda que o ritmo de crescimento seja menor.

Falências em alta e mudança na jurisprudência

O estoque de empresas falidas voltou a subir. Chegou a 2.798 casos ao final de junho, aumento de 66 ocorrências no ano, sendo 38 apenas no segundo trimestre. Em fevereiro, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a possibilidade de a Fazenda Pública requerer a falência de empresas quando a execução fiscal se mostrar ineficaz, ampliando os instrumentos de cobrança de grandes devedores tributários.

O que esperar para o resto de 2026

A tendência é de manutenção do cenário, com ritmo de crescimento menor. A queda dos juros ainda não chegou às estatísticas de insolvência. O crédito restritivo e o custo financeiro elevado seguem pressionando o caixa das empresas. A redução de junho é um sinal, não uma reversão.

Para quem acompanha o setor, a lição é clara: entender a tecnologia e a estrutura financeira protege o investidor. No agro, a safra pode ser boa e o caixa, não. A crise é financeira, e ela não se resolve só com chuva.

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Perguntas Frequentes

O agro quebra mais que outros setores?

Sim. No primeiro semestre de 2026, o agronegócio liderou as recuperações judiciais, com 1.263 CNPJs, alta de 66% em 12 meses, segundo o Monitor RGF-Bizdoc.

Por que o agro quebra se a safra é boa?

A crise é financeira, não de produção. Juros altos, crédito restrito, oscilação de preços internacionais e eventos climáticos reduzem a capacidade de pagamento, mesmo com colheitas robustas.

Qual setor tem mais empresas em recuperação judicial?

O comércio, com 1.649 companhias, seguido pela indústria de transformação (1.455) e construção (1.102).

Quantas empresas estão em recuperação judicial no Brasil?

6.341 empresas no recorte restrito da pesquisa ao final do primeiro semestre de 2026, o maior nível da série histórica.

Quando os juros mais baixos vão reduzir as recuperações judiciais?

Os efeitos costumam demorar entre 12 e 18 meses para aparecer nas estatísticas de insolvência. A expectativa é de ritmo menor de crescimento, não reversão imediata.

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