Air Force One vira avião-isca em ameaça a Trump
Ameaça grave levou Trump a ser retirado secretamente do Air Force One em Ancara, mas o avião decolou com funcionários e jornalistas a bordo, usados como iscas. Entenda a operação.
Air Force One vira 'avião-isca' em meio a ameaça de ataque a Trump
A ameaça ao Air Force One foi considerada tão grave que Donald Trump foi retirado secretamente do avião dentro de um contêiner de catering, para mantê-lo em segurança. Mas a mesma ameaça não impediu que, em seguida, o avião presidencial decolasse normalmente, levando uma aeronave cheia de funcionários do governo, jornalistas e militares que serviram como iscas.
Se os iranianos realmente tentavam derrubar o avião presidencial no mês passado, como concluíram autoridades americanas na época, a manobra realizada em Ancara, na Turquia, que protegeu o presidente também pode ter transformado em alvos dezenas de outras pessoas que viajaram a bordo da aeronave. Algumas delas sequer sabiam que Trump não estava de fato com elas, porque a situação era considerada perigosa demais.
A operação em Ancara: o que mudou na segurança presidencial
O governo americano já recorreu, em raras ocasiões, a artifícios para proteger presidentes de possíveis ameaças, especialmente em viagens a locais de risco. Foi o caso de George W. Bush e Barack Obama em viagens ao Iraque durante períodos de guerra, ou de Bill Clinton em uma breve visita ao Paquistão, país com histórico de terrorismo. A operação da equipe de Trump em Ancara, porém, chama atenção não apenas pelo desvio de atenção, mas também pela maneira como transferiu o risco evidente para outras pessoas e permaneceu em segredo muito depois de Trump já estar fora de perigo.
"Eles simplesmente não pareceram pensar em ninguém além do presidente e das poucas pessoas que estavam com ele", disse Joe Lockhart, que foi secretário de imprensa da Casa Branca durante o governo Clinton na viagem do presidente a Islamabad, capital do Paquistão, em 2000. "Nós fizemos de tudo para garantir que o maior número possível de pessoas, especialmente civis, estivesse protegido e não fosse usado como escudo humano. Eles nem sequer pensaram nisso. E, para mim, essa é a grande diferença."
Outros veteranos de viagens presidenciais de risco, porém, disseram que houve ocasiões em que medidas extremas foram justificadas para proteger o presidente. Joe Hagin, que como importante assessor de Bush ajudou a organizar suas viagens a zonas de guerra e depois foi vice-chefe de gabinete da Casa Branca de Trump em seu primeiro mandato, afirmou que não questionaria a decisão tomada em Ancara.
"Entendo que exista preocupação com aqueles que estavam a bordo do que se presumia ser a aeronave principal", disse Hagin, "mas, quando você vai trabalhar na Casa Branca ou viaja com o presidente, está aceitando um grau de risco que não é insignificante. Contar a todos o que estava acontecendo em uma operação como essa obviamente teria colocado a segurança do presidente em risco."
Quando Bush ou Obama levavam funcionários e jornalistas para zonas de guerra, acrescentou Hagin, também eram momentos perigosos. "Isso não foi diferente das viagens ao Iraque e ao Afeganistão", disse. "Você soma todos os riscos e define as táticas que oferecem a opção mais segura, independentemente de quem terá os pés pisados ou os sentimentos feridos."
Quem sabia e quem não sabia do risco a bordo
Os funcionários do governo e jornalistas que viajavam com presidentes para zonas de guerra, naturalmente, sabiam que estavam fazendo isso. Já aqueles que permaneceram no Air Force One em Ancara no mês passado não foram informados sobre o aumento da ameaça. Jornalistas que viajavam na parte traseira do avião receberam instruções, ainda em solo, para manter as persianas das janelas fechadas durante o voo de 8 de julho de Ancara para a Grã-Bretanha, onde Trump pousou secretamente em outra aeronave militar. Depois, o presidente foi colocado novamente às escondidas no Air Force One para que pudesse desembarcar diante das câmeras como se tivesse permanecido a bordo durante todo o trajeto.
A troca secreta de aeronaves em Ancara, revelada inicialmente na segunda-feira pelo The Washington Post e confirmada pelo The New York Times e por outros veículos, foi tão extraordinária que parecia saída de Hollywood. Na verdade, ela desafiou até mesmo a imaginação de Andrew W. Marlowe, roteirista do icônico suspense de 1997 "Air Force One", estrelado por Harrison Ford como um presidente cujo avião é sequestrado. Ao refletir sobre o episódio na terça-feira, Marlowe disse ter certeza de que o Serviço Secreto estava fazendo o necessário para manter o presidente seguro. Mas acrescentou que a operação não fazia Trump parecer particularmente bem.
"A vida real não é um filme, mas, dadas as circunstâncias, não tenho certeza de que conseguiria escrever uma cena como essa para um personagem principal heroico", disse Marlowe. "Se a ameaça fosse tão grande, é difícil imaginar o público torcendo por um personagem que colocaria sua própria segurança em risco ao tratar os civis restantes a bordo como possíveis cordeiros sacrificiais, especialmente sem o consentimento informado deles."
A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário sobre os cálculos que levaram à decisão ou sobre se medidas adicionais foram tomadas para proteger o avião de qualquer ameaça mesmo sem Trump a bordo.
O histórico de ameaças contra Trump
A extraordinária operação de engano evidenciou a percepção de perigo vivida por Trump, que foi atingido de raspão por uma bala de um possível assassino durante a campanha em Butler, na Pensilvânia, em 2024, e foi alvo de outro homem armado em seu campo de golfe na Flórida mais tarde naquele ano. Durante o governo Biden, autoridades disseram que elementos ligados ao Irã tentavam matar Trump. Ainda na terça-feira, a polícia investigava uma ameaça de bomba em um McDonald's de Ohio, perto do local onde Trump faria uma visita mais tarde naquela noite.
Como funcionam as iscas na segurança presidencial
O Serviço Secreto e as unidades militares responsáveis pela segurança do presidente costumam usar iscas para confundir possíveis atacantes, embora não envolvam civis sem seu conhecimento. Quando um presidente viaja em uma comitiva, geralmente há duas limusines blindadas ou SUVs idênticos, com placas também idênticas de Washington, D.C., para dificultar a identificação do veículo em que ele está. Quando viaja no Marine One, normalmente há três ou quatro helicópteros verde e branco idênticos voando juntos.
"Se houver um ataque à comitiva, o grupo protegido se separa e todos os demais ficam por conta própria, desde alguns funcionários da Casa Branca até militares, todos os jornalistas e membros do Congresso", escreveu Ari Fleischer, secretário de imprensa da Casa Branca durante o governo Bush, nas redes sociais na terça-feira. "A segurança do presidente sempre vem em primeiro lugar. Nós não reclamamos. É assim que funciona."
O presidente dos Estados Unidos, ou POTUS, na sigla usada pelo governo, é ao mesmo tempo a autoridade mais visível e mais protegida do país. A Casa Branca se transformou, ao longo dos anos, em uma espécie de fortaleza, e Trump planeja ampliar o perímetro de segurança com uma nova cerca ao redor da Lafayette Square, do outro lado da rua da residência presidencial.
Por tradição, um presidente sempre viaja acompanhado por um grupo de jornalistas que registra todos os seus movimentos públicos e declarações. A cobertura constante é considerada vital na era nuclear, quando uma crise pode confrontar um presidente a qualquer momento. Jornalistas estavam com John F. Kennedy quando ele foi baleado em Dallas, em 22 de novembro de 1963, e estavam com Bush quando terroristas atacaram os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001.
Quando presidentes fizeram viagens a zonas de guerra nos últimos anos, a Casa Branca normalmente convocou um número selecionado de executivos de veículos de comunicação para a Sala de Situação ou telefonou para jornalistas, colocando-os a par dos planos e exigindo sigilo, para que pelo menos alguns pudessem acompanhar o presidente e posteriormente noticiar as visitas, quando fosse seguro. Bush e Obama levaram jornalistas consigo ao Afeganistão e ao Iraque, assim como Trump em seu primeiro mandato. O presidente Joe Biden levou um jornalista e um fotógrafo de imprensa em uma viagem secreta de 9 horas e meia de trem até a Ucrânia devastada pela guerra.
Quando Clinton viajou ao Paquistão, a comitiva seguiu regras rígidas para proteger o presidente, mas sempre com o conhecimento dos envolvidos. A diferença em Ancara, segundo veteranos, foi a falta de consentimento informado. segurança presidencial bastidores da Casa Branca
Perguntas Frequentes
Trump estava no avião quando ele decolou de Ancara?
Não. Trump foi retirado secretamente do Air Force One em Ancara, dentro de um contêiner de catering, e pousou em outra aeronave militar na Grã-Bretanha. O avião presidencial decolou com funcionários, jornalistas e militares a bordo, que serviram como iscas.
Quem revelou a operação do avião-isca?
A troca secreta foi revelada inicialmente pelo The Washington Post e confirmada pelo The New York Times e por outros veículos.
Os jornalistas a bordo sabiam do risco?
Não. Os jornalistas que viajavam na parte traseira do avião receberam apenas instruções para manter as persianas das janelas fechadas durante o voo, sem serem informados sobre o aumento da ameaça.
O que é um avião-isca na segurança presidencial?
É uma aeronave usada para confundir possíveis atacantes, fazendo-os acreditar que o presidente está a bordo. O Serviço Secreto costuma usar iscas, mas sem envolver civis sem seu conhecimento, como ocorreu em Ancara.
Trump já havia sofrido ameaças antes?
Sim. Trump foi atingido de raspão por uma bala em Butler, na Pensilvânia, em 2024, e foi alvo de outro homem armado em seu campo de golfe na Flórida naquele ano. Durante o governo Biden, autoridades disseram que elementos ligados ao Irã tentavam matá-lo.