Economia

Copa, streaming e bets: como viraram desafio para a Renner

ResumoA Renner enfrenta desafios operacionais com a Copa do Mundo de 2026, streaming e apostas esportivas (bets) reduzindo o tráfego e as vendas. A varejista de moda revisou a projeção de receita e registrou queda superior a 11% nas ações no Ibovespa. O impacto supera o de concorrentes do setor, exigindo ajustes estratégicos.

A Renner foi a varejista de moda mais afetada pela Copa do Mundo de 2026. Com streaming e bets ampliando o impacto, a companhia revisou sua projeção de receita e viu as ações caírem mais de 11% no Ibovespa.

Fábio Quaresma
Fábio Quaresma Especialista em finanças pessoais · 07 de agosto de 2026
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Como streaming e bets transformaram a Copa em um desafio para a Renner

Se você acompanha o varejo de moda, sabe que a Copa do Mundo sempre aparece nos balanços como uma explicação pontual para dias mais fracos de vendas. Neste segundo trimestre de 2026, porém, o cenário foi diferente. A Renner, a C&A e a Riachuelo relataram perda de fluxo nas lojas, mas foi a Renner quem mais sentiu o impacto, a ponto de revisar sua projeção de receitas para o ano. As ações da varejista lideraram as perdas do Ibovespa nesta sexta-feira, 7 de agosto.

O que mudou na Copa: streaming, mais jogos e bets

A Copa do Mundo de 2026 teve um comportamento muito diferente das edições anteriores, segundo o CEO da Renner, Fabio Faccio, em entrevista à EXAME. "Normalmente havia queda de fluxo apenas nos dias de jogos do Brasil. Desta vez vimos uma redução durante todo o evento", afirmou.

O executivo atribuiu a mudança a uma combinação de fatores: o streaming gratuito na palma da mão, um número maior de jogos e de seleções e a expansão das apostas esportivas. "Isso reduziu o fluxo nas lojas físicas muito mais do que imaginávamos", disse.

Na C&A, o CEO Paulo Correa também notou o efeito. "Essa é a minha sexta Copa do Mundo na C&A. Historicamente sempre há queda de fluxo nos dias de jogos do Brasil. Desta vez havia mais jogos, mais seleções e a Copa estava no celular de todo mundo", afirmou. Já na Riachuelo, o CEO André Farber atribuiu parte da desaceleração das vendas em mesmas lojas (SSS) ao torneio. "Se tirássemos o efeito Copa, teríamos crescido acima de 10%", disse à EXAME.

Números mostram impacto maior na Renner

Os números mostram que a intensidade do impacto foi diferente entre as empresas. Enquanto as vendas SSS do vestuário em operações há mais de 12 meses avançaram 7,8% na Riachuelo e 4,1% na C&A, a Renner registrou crescimento de apenas 0,5%, ficando significativamente atrás das concorrentes e de seu próprio desempenho no ano passado, de 17,3% entre abril e junho de 2025.

Foi esse desempenho que chamou atenção dos analistas. Para o Safra, o crescimento das vendas em mesmas lojas da Renner foi "decepcionante" em comparação com seus pares e, somado ao corte do guidance, tende a pressionar o sentimento dos investidores no curto prazo. O banco, porém, destaca que a companhia preserva uma posição financeira sólida e mantém recomendação de compra, observando que ainda será preciso entender se a fraqueza das vendas foi apenas temporária ou se representa uma desaceleração mais estrutural.

Revisão do guidance: de 9%-13% para 4%-8%

A Renner encerrou o segundo trimestre com lucro maior, margens recordes e caixa robusto, mas admitiu que o ritmo de vendas ficou aquém do esperado. A companhia reduziu sua estimativa de crescimento da receita de varejo neste ano, de uma faixa de 9% a 13% para uma nova faixa entre 4% e 8%. A revisão não altera o plano estratégico até 2030, mas escancara como um evento que tradicionalmente afeta apenas alguns dias de operação acabou tendo efeitos muito mais amplos.

A Copa, porém, não explica sozinha a revisão do guidance. A esperada queda mais rápida da taxa básica de juros, a Selic, não se concretizou. Até o início do ano havia quem visse os juros encerrarem 2026 no patamar de 12% ao ano. A projeção mais otimista agora vê a taxa em 13,75% até o fim do ano.

Além disso, a inflação permaneceu acima das projeções da companhia, o endividamento das famílias continuou aumentando e mudanças tributárias elevaram a competitividade de plataformas internacionais. Em maio, o governo federal zerou o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada "taxa das blusinhas". "São pequenos fatores que vão se somando. Mas o que realmente foi diferente para nós foi a Copa do Mundo", afirmou Faccio.

O que dizem os bancos sobre o futuro da Renner

O Itaú BBA avalia que o segundo semestre precisará mostrar uma aceleração importante para que a empresa consiga atingir até mesmo a nova projeção de crescimento da receita. Pelas estimativas do banco, após crescer apenas 2,5% no primeiro semestre, a Renner precisará acelerar para cerca de 5,5% na segunda metade do ano.

O BBA também observa que julho já começou mais difícil para o varejo de vestuário, o que torna os próximos meses decisivos para validar a nova projeção da companhia. Na primeira hora de negociação no pregão desta sexta, 7, as ações da varejista caíam mais de 11%, a maior queda do Ibovespa.

Trimestre rentável apesar da revisão

Apesar da revisão do guidance, a Renner entregou um trimestre mais rentável. O lucro líquido ajustado atingiu R$ 397,3 milhões entre abril e junho, alta de 8% sobre o mesmo período de 2025 e avanço de 113,8% em relação ao primeiro trimestre. O lucro líquido reportado foi de R$ 404,6 milhões.

A receita líquida de varejo somou R$ 3,69 bilhões, crescimento de 1,1%, enquanto a receita operacional líquida consolidada alcançou R$ 4,2 bilhões, avanço de 0,8%. Mesmo com vendas abaixo do esperado, a companhia registrou margem bruta recorde para um segundo trimestre, de 57,5%, beneficiada por uma gestão mais eficiente de estoques e maior disciplina nas despesas, que cresceram apenas 1,5%.

O CFO Daniel Martins reforçou que a fortaleza operacional permaneceu preservada. "Seguimos com margem bruta recorde, despesas sob controle e lucro crescendo. A companhia continua uma forte geradora de caixa e mantendo uma remuneração relevante aos acionistas", disse à EXAME. Apenas no segundo trimestre foram distribuídos R$ 220 milhões em juros sobre capital próprio e R$ 213 milhões em recompras de ações.

Planos de expansão seguem mantidos

Mesmo diante de um ambiente econômico mais desafiador e da proximidade das eleições de 2026, a administração afirma que não pretende alterar sua estratégia de expansão. A companhia manteve todas as metas de médio e longo prazo e segue confiante na abertura de novas lojas, principalmente em cidades médias e pequenas.

A companhia pretende abrir entre 50 e 60 novas lojas Renner neste ano. Até agora, 19 já foram inauguradas. De acordo com o executivo, justamente por se tratar de um evento excepcional, a Copa não altera a visão estrutural da empresa. "O ano que vem não tem Copa masculina. Todo ano tem alguma variável, mas não um evento desse tamanho. Nosso modelo continua preparado para atingir as metas de longo prazo."

Questionado sobre a Copa do Mundo feminina de 2027, Faccio ponderou que ela poderá gerar algum efeito sobre o fluxo das lojas, mas acredita que o impacto tende a ser menor. "A Copa do Mundo feminina pode ter algum impacto no fluxo das lojas, e vamos nos preparar para isso. Mas acredito que ele tende a ser menor, porque a audiência é diferente e a Copa masculina mobiliza um público muito maior, o que acaba afastando mais consumidores dos shopping centers e das lojas".

Perguntas Frequentes

Por que a Renner foi mais afetada pela Copa do que outras varejistas?

A Renner registrou crescimento de apenas 0,5% nas vendas em mesmas lojas no segundo trimestre, contra 7,8% da Riachuelo e 4,1% da C&A. A combinação de streaming gratuito, mais jogos e expansão das bets reduziu o fluxo nas lojas durante todo o torneio, não apenas nos dias de jogos do Brasil.

O que levou a Renner a revisar sua projeção de receita para 2026?

Além da Copa, a Selic não caiu na velocidade esperada, a inflação ficou acima das projeções, o endividamento das famílias aumentou e mudanças tributárias elevaram a competitividade de plataformas internacionais. A nova faixa de crescimento da receita de varejo é de 4% a 8%, ante 9% a 13%.

Como o mercado reagiu à revisão do guidance da Renner?

As ações da Renner caíram mais de 11% na primeira hora de negociação do pregão de 7 de agosto, a maior queda do Ibovespa. O Safra classificou o desempenho como "decepcionante", mas manteve recomendação de compra. O Itaú BBA vê necessidade de aceleração no segundo semestre.

A Renner mudou seus planos de expansão por causa da Copa?

Não. A companhia mantém a meta de abrir entre 50 e 60 novas lojas em 2026, com 19 já inauguradas. A administração afirma que a Copa é um evento excepcional e não altera a visão estrutural de longo prazo.

Qual o impacto da Copa do Mundo feminina de 2027 na Renner?

O CEO Fabio Faccio acredita que o impacto tende a ser menor, pois a audiência é diferente e a Copa masculina mobiliza um público muito maior, afastando mais consumidores das lojas.

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