Economia

Devastado pela guerra, Iêmen vive milagre do futebol em meio à Copa do Mundo

ResumoO Iêmen, devastado por anos de guerra civil, encontra no futebol um raro espaço de normalidade e esperança. A modalidade mobiliza comunidades inteiras e revela talentos locais, oferecendo um respiro em meio aos escombros do conflito.

Em meio aos escombros da guerra civil, o futebol no Iêmen se transformou em um raro respiro de normalidade e esperança. Mais do que um jogo, a modalidade mobiliza comunidades e revela talentos em um país onde a infraestrutura básica desabou.

Tânia Lustosa
Tânia Lustosa Colunista de economia e sociedade · 02 de julho de 2026
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Devastado pela guerra, Iêmen vive milagre do futebol em meio à Copa do Mundo

O Iêmen, país do sul da Península Arábica, é hoje um dos cenários mais brutais da geopolítica global. Desde 2014, a guerra civil entre o governo reconhecido internacionalmente e os rebeldes houthis já matou mais de 377 mil pessoas, segundo a ONU. A fome, a falta de água potável e o colapso do sistema de saúde são o cotidiano de 30 milhões de iemenitas. No entanto, em meio aos escombros, o futebol emerge como um fenômeno social improvável. A Copa do Mundo, transmitida em telas improvisadas e rádios de pilha, virou o único evento que reúne famílias em praças públicas, ainda que sob o risco de bombardeios.

A resposta direta: O futebol no Iêmen não é apenas um esporte: é uma ferramenta de sobrevivência psicológica e coesão social. Em um país onde a infraestrutura básica desabou, os campos de terra batida e as peladas entre bairros inimigos se tornaram trégua tácita. Dados da ONU indicam que mais de 70% da população vive abaixo da linha da pobreza, mas o interesse pelo futebol não diminuiu. A Copa do Mundo, nesse contexto, funciona como um raro canal de esperança e pertencimento.

O futebol como resistência em zonas de conflito

O esporte sempre foi um termômetro da resiliência social. No Iêmen, o futebol antecede a guerra: a seleção nacional, embora modesta, já disputou eliminatórias para Copas do Mundo e a Copa da Ásia. Com a guerra, os jogadores se dispersaram, muitos fugiram para Arábia Saudita, Omã ou Egito. Mas as ligas locais, ainda que precárias, nunca pararam completamente. Em Sanaa, a capital controlada pelos houthis, partidas acontecem em estádios com marcas de estilhaços. Em Aden, no sul, o governo local organiza torneios como forma de ocupar jovens e evitar o alistamento forçado.

A ONU estima que 2 milhões de crianças iemenitas estão fora da escola. O futebol, para muitas delas, é a única atividade regular. Organizações como a FIFA e a UNICEF financiam projetos de "futebol pela paz" no país, com treinadores locais e equipamentos doados. Em 2023, a FIFA anunciou um fundo de US$ 500 mil para reconstrução de campos no Iêmen, mas o montante é insuficiente diante da destruição generalizada.

Quem paga a conta do "milagre"?

A narrativa de um "milagre do futebol" no Iêmen precisa ser lida com cuidado. Por trás dos lances de genialidade em campo, há um custo humano imenso. Jogadores amadores se arriscam em viagens perigosas para treinar, muitas vezes em rotas controladas por milícias. A falta de material básico, bolas, chuteiras, uniformes, é a regra. A maioria dos clubes sobrevive de doações da diáspora iemenita, que envia dinheiro via transferências bancárias ou, em áreas sem bancos, por meio de Hawala, sistema informal de remessas muito usado no Oriente Médio.

O Banco Central do Iêmen, em relatório de 2024, apontou que a inflação anual ultrapassa 40% e o poder de compra caiu 60% desde 2015. Isso significa que uma bola de futebol, que custa cerca de US$ 30, equivale ao salário de um mês de um trabalhador não qualificado. O acesso ao esporte, portanto, é profundamente desigual. Apenas jovens de famílias com parentes no exterior conseguem manter a prática regular.

A Copa do Mundo como vitrine de esperança

Durante a Copa do Mundo, o Iêmen se transforma. Em cafés e praças, telas de TV são montadas em estruturas de madeira. Em áreas rurais sem eletricidade, geradores a diesel alimentam aparelhos antigos. A transmissão é feita por canais via satélite, como a beIN Sports, que cobre a região. A audiência é massiva: estima-se que 80% dos iemenitas com acesso a TV acompanham o torneio, segundo a Unesco.

O futebol também serve como plataforma para denúncias. Em 2022, durante a Copa do Catar, a seleção iemenita não se classificou, mas a cobertura da imprensa local focou nos bombardeios que mataram crianças enquanto assistiam aos jogos. A hashtag #YemenFootballSurvives viralizou no X (antigo Twitter), com vídeos de partidas em ruas esburacadas.

O papel das mulheres no futebol iemenita

Um dos aspectos menos notados é a participação feminina. No Iêmen, o futebol feminino é proibido em áreas controladas pelos houthis, mas no sul, o governo local permite treinos em campos fechados. Em 2024, a primeira liga feminina de futebol foi organizada em Aden, com 8 times e cerca de 200 jogadoras. A iniciativa foi financiada por ONGs europeias e pela Federação Iemenita de Futebol, que enfrenta críticas por falta de apoio. As jogadoras relatam ameaças e assédio, mas insistem: o futebol é uma forma de existir publicamente.

futebol feminino em zonas de conflito

A economia paralela do esporte

O futebol movimenta uma economia informal no Iêmen. Vendedores ambulantes de camisetas, apostas clandestinas e pequenos patrocínios de lojas locais geram renda para milhares de famílias. Em Taiz, cidade sitiada, uma partida entre bairros rivais pode movimentar até US$ 5 mil em apostas informais. Esse dinheiro circula em um país onde o sistema bancário está fragmentado e o papel-moeda vale menos que o dólar americano, amplamente usado no mercado paralelo.

O futuro incerto

O "milagre do futebol" no Iêmen é real, mas frágil. Sem um cessar-fogo duradouro e investimento em infraestrutura, o esporte continuará sendo uma válvula de escape, não uma solução. A comunidade internacional, por meio da FIFA e da ONU, precisa transformar o apoio pontual em política de Estado. Enquanto isso, a cada gol marcado em um campo improvisado, o Iêmen reafirma que a vida insiste em brotar entre os escombros.

Perguntas Frequentes

O Iêmen tem seleção de futebol?

Sim, a seleção iemenita existe e é filiada à FIFA desde 1980. Ela nunca se classificou para uma Copa do Mundo, mas já disputou eliminatórias e a Copa da Ásia.

Como o futebol sobrevive à guerra?

O esporte sobrevive graças à resiliência de treinadores, jogadores e comunidades locais, além de doações da diáspora e de organizações internacionais como a FIFA e a UNICEF.

O futebol feminino é permitido no Iêmen?

Nas áreas controladas pelo governo, sim, com restrições. Nas regiões sob controle houthi, o futebol feminino é proibido.

Qual o impacto econômico do futebol no Iêmen?

O futebol movimenta uma economia informal significativa, com apostas, venda de produtos e pequenos patrocínios, gerando renda para milhares de famílias.

Como a Copa do Mundo é assistida no Iêmen?

A transmissão é feita por canais via satélite, com telas improvisadas em cafés e praças. Em áreas sem eletricidade, geradores a diesel permitem a exibição.

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