El Niño deve custar caro ao PIB do Brasil com choques em agro e energia
O El Niño deve custar caro ao PIB do Brasil. O aumento de temperatura e eventos extremos atingem agro, energia, seguros e crédito. Veja o que diz Paulo Artaxo, da USP.
El Niño deve custar caro ao PIB do Brasil com choques em agro e energia
A instabilidade do clima deixou de ser apenas uma pauta ambiental. O aumento da temperatura e a frequência de eventos climáticos extremos atingem de forma direta a produção do agronegócio, o setor elétrico, o mercado imobiliário e os custos do setor financeiro.
Segundo o IBGE, o PIB do Brasil em 2024 foi de 11.744.000 R$ milhões. Esse número expressivo mostra o tamanho do que está em jogo quando o clima desanda.
O que o El Niño significa para a economia brasileira?
O fenômeno El Niño, que aquece as águas do Pacífico, mexe com o regime de chuvas no Brasil. Para o pesquisador Paulo Artaxo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o impacto é direto e bilionário.
"Isso é reconhecido não só pela ciência, mas o Fórum Econômico Mundial de Davos deixa muito claro nos seus últimos cinco relatórios que, entre os dez maiores riscos para o sistema econômico global geral, até cinco desses estão associados com a questão climática ou ambiental", afirma Artaxo.
A declaração foi dada em entrevista ao programa O Clima na Faria Lima, videocast produzido pelo InfoMoney e apresentado por Marina Cançado.
Por que o Brasil é mais vulnerável ao clima?
A localização geográfica tropical do Brasil acentua os efeitos econômicos das mudanças climáticas. Enquanto a média global de aquecimento se aproxima de 1,45 °C, a elevação em território nacional pode atingir patamares entre 3,5 °C e 4 °C.
Esse diferencial térmico afeta diretamente a produtividade do campo e a geração de energia. Não é um cenário distante: é uma projeção que já começa a se materializar em safras e contas de luz.
O agro brasileiro na linha de frente
A desregulamentação do regime de chuvas compromete a agricultura irrigada e de sequeiro no Brasil Central. Essa região depende da umidade trazida pela Amazônia. Com o aumento do desmatamento ilegal, esse fluxo hídrico é alterado, criando prejuízos acumulados para os produtores rurais.
Há ainda um custo extra: as exportações ficam expostas a exigências internacionais mais rígidas de rastreabilidade socioambiental.
Para monitorar essas áreas e garantir o cumprimento da lei, o país conta com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e com a rede MapBiomas. Essas ferramentas mapeiam o histórico do uso da terra e ajudam a identificar infrações na cadeia produtiva do agronegócio.
O custo escondido no crédito e nos seguros
Artaxo pontua que há outra camada de pressão para determinados setores. Com perdas causadas por secas e inundações históricas, seguradoras e instituições bancárias vão precisar recalcular o custo do crédito e a concessão de apólices rurais.
"O agronegócio já está sofrendo perdas bilionárias e o setor de seguros está reavaliando a cobertura de riscos climáticos. A inação gera custos muito maiores do que os investimentos necessários para a adaptação."
Ou seja: o preço do dinheiro para o campo tende a subir, e o seguro rural pode ficar mais caro ou mais restrito.
Portos e infraestrutura litorânea em risco
Para que haja adaptação econômica, Artaxo menciona que também é preciso rever o planejamento de infraestrutura de longo prazo em áreas litorâneas.
Com 8.500 km de costa, a exposição ao aumento do nível dos oceanos reflete perigos para portos fundamentais para a balança comercial, como o porto de Santos, em São Paulo.
Um porto parado ou danificado não afeta só uma cidade: afeta a cadeia inteira de exportação do país.
Energia renovável como saída econômica
Para além da mitigação de danos, a transição para fontes renováveis apresenta viabilidade e eficiência financeira. A geração de energia por fontes solar e eólica já opera com custos inferiores aos da energia fóssil.
Isso oferece ao Brasil a oportunidade de consolidar uma matriz elétrica barata e competitiva. Não é só uma escolha ambiental: é uma decisão econômica racional.
O mercado financeiro já está se movendo
Com possibilidade de risco de desvalorização em ativos ligados ao petróleo e a atividades intensivas em carbono, o mercado financeiro e as corporações começam a redirecionar o capital para projetos sustentáveis.
Para o especialista, negligenciar essas mudanças compromete a estabilidade das organizações.
A gente separa a tecnologia do hype: aqui, o que está em jogo não é uma promessa de lucro, mas a solidez de setores inteiros da economia brasileira. Entender a relação entre clima e PIB te protege de surpresas no bolso, seja no preço do alimento, na conta de luz ou no custo do crédito.
Perguntas Frequentes
O El Niño afeta o PIB do Brasil?
Sim, segundo Paulo Artaxo, da USP. O aumento de temperatura e eventos climáticos extremos atingem diretamente o agronegócio, o setor elétrico, o mercado imobiliário e os custos do setor financeiro, pressionando a economia como um todo.
Quanto o Brasil pode aquecer em relação à média global?
Enquanto a média global de aquecimento se aproxima de 1,45 °C, o Brasil pode atingir entre 3,5 °C e 4 °C, devido à sua localização tropical. Isso afeta a produtividade do campo e a geração de energia.
Como o agro brasileiro é afetado pelo clima?
A desregulamentação do regime de chuvas compromete a agricultura irrigada e de sequeiro no Brasil Central. O desmatamento ilegal altera o fluxo hídrico vindo da Amazônia, criando prejuízos acumulados para os produtores rurais.
O que seguradoras e bancos têm a ver com o clima?
Com perdas por secas e inundações, seguradoras e bancos precisam recalcular o custo do crédito e a concessão de apólices rurais. Isso pode encarecer o crédito e o seguro no campo.
Energia renovável é viável financeiramente?
Sim. A geração solar e eólica já opera com custos inferiores aos da energia fóssil, oferecendo ao Brasil a oportunidade de uma matriz elétrica barata e competitiva.
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