Selic a 14%: inflação ajuda Copom, mas corte pode ser o último
O Copom define nesta quarta-feira (5) se corta a Selic para 14%. Inflação corrente ajuda, mas guerra no Oriente Médio, fiscal e Fed estreitam o espaço para novos cortes. Entenda os cenários.
Inflação deve ajudar Copom a cortar Selic a 14%; será o último corte do ano?
O Comitê de Política Monetária (Copom) define nesta quarta-feira (5) o novo patamar de juros do Brasil. A taxa está em 14,25%, e a aposta majoritária, de 89,5% no mercado de Opções da B3, é por um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14%. Pelas projeções do Boletim Focus, esse seria o limite de juros para este ano. A pergunta que economistas e investidores fazem agora é se este será o último corte do ciclo.
Por que a inflação favorece o corte agora
Quem defende a redução de 0,25 ponto avalia que os juros estão restritivos há bastante tempo e que a inflação acumulada converge para o teto da meta. No curto prazo, os dados ajudam: o IPCA-15 de julho veio abaixo do esperado, e bancos como JP Morgan e Itaú destacam que os núcleos sensíveis aos juros atingiram os menores patamares em 12 meses, puxados pela descompressão global. A variação mensal do IPCA em junho foi de 0,16%, um alívio frente aos meses anteriores.
Os riscos que podem encerrar o ciclo
Na ala conservadora, porém, o alerta é claro. Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, avalia que não há sustentação para continuar a flexibilização, uma vez que o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre. "O corte precisa ser validado pela inflação. Se houver repique de preços, deterioração cambial ou nova desancoragem das expectativas, esse espaço desaparece rapidamente", afirma.
As incertezas da guerra no Oriente Médio, que elevam os preços, somam-se à desancoragem das expectativas e ao cenário fiscal brasileiro. A consultoria 4intelligence alerta que o El Niño, já em intensidade expressiva, pressionará os alimentos a partir de setembro, enquanto o mercado de trabalho segue sobreaquecido, blindando a inflação de serviços.
O fiscal e o Fed apertam o espaço
A piora fiscal agrava o quadro. O BTG Pactual projeta que a Dívida Bruta alcançará 81,6% do PIB em 2026, e alerta para o salto expressivo das emissões de títulos pós-fixados (LFTs), que já beiram o teto de 50% do Plano Anual de Financiamento.
Na semana passada, o Federal Reserve manteve os juros em pausa. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, alerta que um tom mais firme do Fed pode fechar o diferencial de juros com o Brasil, afugentando o capital estrangeiro. Isso pressionaria o câmbio e geraria inflação via produtos importados. André Matos, CEO da MA7 Capital, explica: "O tarifaço entra como uma incerteza a mais, porque mesmo sendo um imposto pago dentro dos Estados Unidos, ele pressiona o câmbio, e o câmbio costuma ser justamente o canal que faz a inflação subir aqui".
O que esperar das próximas reuniões
Diante da instabilidade, o fim do ciclo de cortes ganha força. José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, aponta que a desancoragem das expectativas de longo prazo "exige que este seja o último corte". Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos, projeta que o próprio Banco Central reconhecerá a inflação de longo prazo rompendo o teto da meta.
Na trincheira oposta, Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, defende que a política restritiva já drena a economia o suficiente. Ele projeta cortes até a Selic bater 13,75%. "O processo tende a reduzir gradualmente as pressões salariais e, consequentemente, a inflação de serviços, principal foco de preocupação do Banco Central", argumenta.
Projeções divergentes entre as grandes casas
A Warren Rena defende que a "decisão ideal seria a manutenção da taxa Selic em 14,25%" para evitar ruídos e resgatar a ancoragem das expectativas, mas admite que o corte é o caminho mais provável. O Morgan Stanley revisou sua posição e passou a endossar o corte para 14% em agosto, projetando pausa em setembro e novos cortes apenas em janeiro de 2027. Bruno Perri, economista-chefe da Fórum Investimentos, concorda: "Para os próximos meses, minha expectativa é de pausa no ciclo de cortes, em vista de nova alta nos preços do petróleo e das incertezas no Irã".
O JP Morgan projeta reduções consecutivas, com cortes em agosto e setembro, ancorado na hipótese de que a fraqueza da atividade brasileira se aprofundará. O Itaú estima a Selic encerrando 2026 em 13,75% e espera que o Copom adote um tom de "serenidade e cautela", mantendo as "portas abertas" sem fornecer "forward guidance" sobre o ritmo do ciclo.
"O que está em jogo agora é o tamanho do espaço que o Banco Central ainda tem para cortar juros, e esse espaço ficou mais estreito", resume André Matos.
Perguntas Frequentes
O Copom vai cortar a Selic para 14% nesta quarta-feira?
A aposta majoritária no mercado de Opções da B3, de 89,5%, é por um corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa de 14,25% para 14%. O que é a Selic e como ela afeta seus investimentos
Este será o último corte de juros do ano?
Há divergência. Analistas como José Alfaix (Rio Bravo) e Felipe Rodrigo de Oliveira (MAG) defendem que sim, enquanto o JP Morgan projeta cortes também em setembro e a Polo Capital vê espaço até 13,75%. Projeções para a Selic em 2026
O que pode impedir o corte da Selic?
Incertezas da guerra no Oriente Médio, desancoragem das expectativas, piora fiscal e um tom mais firme do Federal Reserve são os principais riscos citados por economistas.
Como a inflação atual influencia a decisão?
O IPCA-15 de julho veio abaixo do esperado, e os núcleos sensíveis aos juros atingiram os menores patamares em 12 meses, o que dá respaldo ao corte. Por outro lado, o El Niño deve pressionar alimentos a partir de setembro.
O que é o forward guidance que o Itaú menciona?
É uma sinalização explícita do Banco Central sobre o ritmo ou a extensão futura do ciclo de juros. O Itaú espera que o Copom evite dar essa sinalização no comunicado desta semana.