Economia

Payroll forte pressiona mercados; Ibovespa resiste e fecha quase estável

ResumoO payroll dos Estados Unidos registrou criação de 162 mil empregos em outubro, superando a expectativa de 55 mil, o que pressionou os mercados globais. O Ibovespa resistiu à pressão externa e fechou praticamente estável, com leve baixa de 0,02%, aos 185.147 pontos. A resiliência do índice brasileiro contrastou com o cenário internacional adverso.

A criação de 162 mil empregos nos EUA, ante expectativa de 55 mil, pressionou mercados globais, mas o Ibovespa fechou praticamente estável, com baixa de 0,02%, aos 185.147 pontos.

Wagner Sobral
Wagner Sobral Repórter de mercado financeiro · 04 de setembro de 2026
Payroll forte pressiona mercados; Ibovespa resiste e fecha quase estável

A criação de 162 mil empregos nos Estados Unidos em agosto, ante expectativa de cerca de 55 mil, pressionou os mercados globais nesta sexta-feira (4), mas o Ibovespa resistiu e fechou praticamente no zero a zero: baixa de 0,02%, aos 185.147 pontos. O dado forte do payroll, principal relatório oficial sobre o mercado de trabalho americano, aumentou as apostas em uma alta de juros pelo Federal Reserve (Fed), fez o dólar ganhar força e derrubou Wall Street.

O índice brasileiro sentiu o impacto imediatamente. Depois de fechar a quinta-feira aos 185.188 pontos, mergulhou até 183.251 pontos, queda superior a 1%. O movimento, porém, não durou. Ao longo da manhã, a Bolsa recuperou todo o tombo, virou para alta e chegou a 186.544 pontos. O fôlego diminuiu à tarde, mas o Ibovespa terminou o pregão praticamente estável. Foram mais de 3.200 pontos entre a mínima e a máxima do dia.

A trajetória chamou atenção porque ocorreu em um ambiente externo claramente mais difícil. O rendimento dos Treasuries subiu, o dólar avançou e os três principais índices de Nova York fecharam no vermelho. Ainda assim, o mercado brasileiro encontrou compradores. Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a explicação passa pela combinação de um choque externo que perdeu força ao longo do dia com fatores domésticos que continuaram sustentando o interesse por ativos brasileiros.

O resultado veio "extremamente acima" das expectativas e fez o mercado reavaliar esperanças de que o Fed tenha espaço para manter os juros na próxima reunião. Além dos 162 mil empregos criados, a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%, em linha com o esperado. O ganho médio por hora trabalhada avançou 0,3% em agosto, também como projetado. Em 12 meses, porém, os salários subiram 3,1%, ligeiramente acima da expectativa de 3,0%. O número que realmente mudou o tom do mercado foi, portanto, a geração de empregos.

Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, destaca que desemprego e salário mensal ficaram próximos das projeções, enquanto a criação de vagas surpreendeu fortemente. Segundo ele, um mercado de trabalho mais firme pode dar ao Fed maior espaço para manter o foco no combate à inflação. "O primeiro impacto para o mercado foi uma forte queda para o Ibovespa e uma forte retomada em relação ao dólar", afirma.

Essa leitura apareceu rapidamente nas apostas para a reunião do Fed em setembro. Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, a probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4,00%, subiu de 49,4% para 58,6%. A chance de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% caiu de 50,6% para 41,4%. Também houve reação nos Treasuries, os títulos do governo dos Estados Unidos. O rendimento do papel de dois anos, bastante sensível às expectativas para os juros, subiu cerca de 4 pontos-base, para 4,377%.

Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, afirma que o payroll mais forte reforça a perspectiva de juros americanos elevados por mais tempo. Em geral, esse cenário tende a reduzir o apetite por ativos de risco de economias emergentes. Era justamente essa a preocupação que aparecia antes da divulgação. André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, já havia alertado que um payroll muito forte poderia aumentar a percepção de pressão inflacionária e elevar a possibilidade de juros mais altos nos EUA.

A abertura confirmou, num primeiro momento, o cenário mais negativo. O Ibovespa caiu até 183.251 pontos, enquanto o dólar avançou. A moeda americana terminou a sessão em alta de 0,5%, a R$ 5,13, após oscilar entre R$ 5,10 e R$ 5,14. O movimento também encontrou uma Bolsa brasileira que vinha de forte valorização nos pregões anteriores. Alexandre Wolwacz, o Stormer, trader e sócio-fundador da Liberta, avaliou ainda durante a pressão inicial que a sequência de altas recentes deixava espaço para uma realização de lucros. Alison Correia, trader e sócio da Dom Investimentos, teve leitura semelhante. Para ele, o payroll acabou funcionando como o "drive que faltava" para uma correção após o forte avanço recente do mercado.

Mas a história do pregão não terminou ali. O Ibovespa começou a recuperar terreno, voltou aos 185 mil pontos e entrou no campo positivo. Na máxima, alcançou 186.544 pontos. A partir daí, surgiu uma nova questão: se o payroll havia aumentado a chance de juros mais altos nos Estados Unidos, por que a Bolsa brasileira conseguia reagir?

Para Perretti, o impacto do payroll foi forte, mas não teve continuidade porque os fatores domésticos voltaram a ganhar peso ao longo da sessão. Na avaliação do economista, investidores seguem olhando para a trajetória das contas públicas e para as expectativas em torno do cenário eleitoral. Ele também cita a percepção de que os ativos brasileiros continuam relativamente atrativos e o interesse do capital estrangeiro. "O impacto imediato em relação ao payroll não trouxe continuidade porque a gente tem uma bolsa muito barata, uma bolsa atrativa", afirma.

Gabriel Uarian também vê o ambiente doméstico como uma peça central para explicar a reação. Segundo ele, depois da pressão inicial típica de um dado externo mais restritivo, o mercado brasileiro passou a mostrar um fluxo comprador sustentado por fatores locais. "Investidores parecem priorizar mais o cenário local, especialmente sobre as perspectivas eleitorais", afirma.

A diferença ficou ainda mais evidente no fechamento. Enquanto o Ibovespa terminou praticamente estável, o S&P 500 caiu 0,38%, o Dow Jones recuou 0,53% e o Nasdaq perdeu 0,29%.

A composição do Ibovespa também ajuda a explicar por que a recuperação foi possível, e por que ela não ganhou força suficiente para levar o índice a um fechamento claramente positivo. André Moraes observou durante a sessão que Vale e bancos ajudaram na reação, enquanto Petrobras permanecia como um contrapeso. No fechamento, a Vale (VALE3) subiu 0,22%, a R$ 78,62. O Itaú (ITUB4) terminou estável, a R$ 41,92. Já a Petrobras fechou no negativo. A PETR3 caiu 1,08%, a R$ 52,01, enquanto a PETR4 recuou 0,95%, a R$ 47,11.

A máxima do dia também coincidiu com uma região técnica relevante. Durante a recuperação, Moraes apontou os 186.500 pontos como uma primeira resistência importante para o Ibovespa. O índice chegou a 186.544 pontos, praticamente em cima desse nível, mas não conseguiu sustentar o movimento. A partir daí, perdeu força e voltou gradualmente para a região dos 185 mil pontos até fechar aos 185.147.

O desenho do pregão, portanto, teve três momentos bem definidos: queda forte após o payroll, recuperação completa das perdas e posterior acomodação perto da estabilidade. A resistência do Ibovespa não significa que o efeito do payroll tenha desaparecido. Os juros americanos terminaram mais pressionados, o dólar subiu e Wall Street fechou em queda. Além disso, o mercado passou a enxergar uma alta de juros pelo Fed em setembro como o cenário mais provável. Perretti lembra que esse movimento também importa para o Brasil.

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