Economia

Poupança: saques superam depósitos em R$ 39,3 bilhões no semestre

ResumoA caderneta de poupança registrou saques líquidos de R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, o maior valor para o período desde 2015. O movimento indica que famílias brasileiras estão utilizando as reservas da poupança para quitar dívidas e financiar consumo.

A caderneta de poupança registrou saques líquidos de R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, o maior valor para o período desde 2015. O movimento revela famílias usando reservas para cobrir dívidas e consumo.

Tânia Lustosa
Tânia Lustosa Colunista de economia e sociedade · 08 de julho de 2026
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Poupança: saques superam depósitos em R$ 39,3 bilhões no semestre

A caderneta de poupança registrou saques líquidos de R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, o maior valor para o período desde 2015. O movimento revela famílias usando reservas para cobrir dívidas e consumo.

No primeiro semestre de 2026, os saques na poupança superaram os depósitos em R$ 39,3 bilhões, segundo dados do Banco Central. O valor é o maior para o período desde 2015 e reflete o uso da caderneta para cobrir despesas correntes e renegociar dívidas, em meio à inflação ainda elevada e juros altos.

Saques recordes e o aperto no orçamento das famílias

O saldo negativo da poupança no semestre foi puxado por dois fatores principais: o aumento do endividamento das famílias e a migração para aplicações mais rentáveis. Dados do Banco Central mostram que, em junho de 2026, o endividamento das famílias com o sistema financeiro atingiu 49,8% da renda acumulada em 12 meses.

A poupança, que rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), perdeu atratividade frente a outros investimentos. Em maio de 2026, a Selic estava em 9,75% ao ano, o que torna títulos de renda fixa, como CDBs e Tesouro Direto, mais vantajosos.

Para quem precisa de liquidez imediata, a poupança ainda é opção, mas o movimento de saques indica que as famílias estão usando o dinheiro para pagar contas do dia a dia, e não para investir.

O impacto no crédito imobiliário

A poupança é a principal fonte de recursos para o crédito imobiliário no Brasil. Com a saída de R$ 39,3 bilhões, os bancos têm menos dinheiro para emprestar para a compra da casa própria. Em 2025, o crédito imobiliário com recursos da poupança cresceu 8,2%, segundo a Abecip.

A tendência para o segundo semestre de 2026 é de desaceleração. Os bancos devem elevar as taxas de juros e exigir entrada maior para compensar a menor disponibilidade de recursos. Quem planeja comprar imóvel pode enfrentar condições mais duras.

Quem são os correntistas que mais sacam?

Os dados do Banco Central não discriminam por faixa de renda, mas pesquisas do IBGE apontam que 60% das famíbras brasileiras têm poupança, mas os saques são mais frequentes entre famílias com renda de até 5 salários mínimos. Essas famílias usam a poupança como colchão de emergência e, com a inflação acumulada em 12 meses de 4,2% em maio de 2026 (IBGE, IPCA), o poder de compra cai, forçando saques.

A pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE indica que, em 2023, 34% dos gastos das famílias brasileiras eram com alimentação e habitação. Com a inflação desses itens acima da média, a poupança vira fonte de recursos para fechar as contas.

Alternativas à poupança: o que o pequeno investidor pode fazer?

Para quem tem reserva financeira, existem alternativas com rentabilidade maior e risco baixo. O Tesouro Selic, por exemplo, rende próximo da taxa básica de juros e tem liquidez diária. CDBs com liquidez diária de bancos médios pagam 100% do CDI, que em maio de 2026 estava em 9,65% ao ano (Banco Central, CDI).

Fundos de renda fixa simples, com taxa de administração abaixo de 0,5% ao ano, também superam a poupança. Mas é preciso considerar o Imposto de Renda: na poupança, o rendimento é isento; nos demais, há IR regressivo de 22,5% a 15% conforme o prazo.

Para o trabalhador de baixa renda, a poupança ainda é a opção mais simples, mas o movimento de saques mostra que ela não está cumprindo o papel de formar reserva.

O papel do Banco Central e a regulação da poupança

O Banco Central monitora o fluxo da poupança e pode, em casos extremos, ajustar regras de direcionamento dos recursos. Em 2026, a captação líquida negativa já levou a um debate sobre a redução do percentual obrigatório de direcionamento para crédito imobiliário, que hoje é de 65% dos depósitos.

Se a tendência de saques continuar, o governo pode ter que injetar recursos no sistema ou permitir que os bancos usem outras fontes para o crédito imobiliário, como letras de crédito imobiliário (LCI) LCI como alternativa à poupança.

Perguntas Frequentes

Por que os saques da poupança estão superando os depósitos?

Porque as famílias estão usando a caderneta para pagar dívidas e despesas correntes, em meio à inflação alta e juros elevados. O rendimento baixo da poupança também leva a migração para outros investimentos.

Qual o valor total dos saques no semestre?

Os saques superaram os depósitos em R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo o Banco Central.

A poupança ainda vale a pena para o pequeno investidor?

Para quem precisa de liquidez imediata e não quer pagar Imposto de Renda, a poupança ainda é opção. Mas, para prazos maiores, alternativas como Tesouro Selic e CDBs pagam mais.

Como os saques afetam o crédito imobiliário?

Com menos dinheiro na poupança, os bancos têm menos recursos para emprestar para a casa própria, o que pode elevar juros e exigir entrada maior.

O que o governo pode fazer para reverter a saída de recursos?

O Banco Central pode ajustar as regras de direcionamento dos recursos da poupança, reduzindo o percentual obrigatório para crédito imobiliário ou permitindo o uso de outras fontes.

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