OPA por permuta na B3: Randon e Santander em análise
OPAs por permuta agitam a B3: Randon e Santander usam ações como moeda. Entenda as diferenças estratégicas e o que isso significa para o acionista.
OPA por permuta ganha força na B3: o que une e o que separa Randon e Santander?
As recentes ofertas públicas de aquisição (OPAs) lançadas por controladores de companhias listadas na B3 colocaram os holofotes sobre um tipo de operação: a troca de ações em vez do pagamento em dinheiro. Em poucos dias, o mercado acompanhou o anúncio da oferta do Grupo Santander para ampliar sua participação no Santander Brasil (SANB11) e da proposta da holding DRAMD, da família Randon, para adquirir ações ordinárias da Randoncorp (RAPT3) usando papéis da Frasle Mobility (FRAS3) como moeda.
O que é uma OPA por permuta e por que ela importa agora
Uma OPA por permuta é uma oferta pública de aquisição em que o pagamento é feito com ações de outra empresa do grupo, em vez de dinheiro. Embora as duas operações tenham em comum o fato de serem OPAs por permuta e não envolverem o fechamento integral de capital das companhias, os objetivos estratégicos, os impactos para as empresas e as implicações para os acionistas são bastante diferentes.
Segundo Tobias Camargo, planejador financeiro e especialista em investimentos, as duas iniciativas refletem um ambiente de Bolsa descontada, no qual controladores enxergam valor maior em seus ativos do que o precificado pelo mercado. "Vejo esse movimento como um reflexo do momento vivido pela Bolsa brasileira. Muitas empresas continuam negociando com múltiplos descontados em relação ao valor que seus controladores enxergam para o negócio, o que favorece reorganizações societárias", afirma.
Para Josias Bento, sócio da GT Capital, há também um componente de alocação de capital. "Esse movimento pode ser visto como uma forma de o controlador recomprar suas ações por um valor mais baixo e, em troca, oferecer ações de empresas do grupo que ainda podem apresentar maior potencial de valorização."
Randoncorp: troca de 2,7 ações por papel da Frasle Mobility
No caso da Randoncorp, a DRAMD propôs adquirir até a totalidade das ações ordinárias (RAPT3) em circulação por meio de uma relação de troca de 2,7 ações RAPT3 para cada ação da Frasle Mobility. A oferta atribui valor de R$ 8,52 por ação da Randoncorp, com prêmio superior a 45% sobre a média de negociação utilizada como referência. A operação já nasce com apoio relevante da Previ, que se comprometeu a aderir à oferta com toda sua participação, equivalente a cerca de 45% do free float elegível.
Santander Brasil: prêmio de 15% e troca por ações da matriz
Já no caso do Santander Brasil, a matriz espanhola pretende trocar ações recém-emitidas do Banco Santander por ações, units ou ADSs do banco brasileiro. A oferta prevê prêmio de 15% e tem como alvo aproximadamente os 10% do capital que ainda permanecem em circulação no mercado. A subsidiária continuará listada na B3, embora o free float possa ser reduzido significativamente dependendo da adesão dos investidores.
Racionalidades distintas segundo o BTG Pactual
Na visão do BTG Pactual, as duas transações têm racionalidades distintas. Enquanto a oferta da Randon parece buscar o aumento gradual do poder de voto da família controladora e eventualmente abrir caminho para uma futura unificação das classes de ações, a operação do Santander é vista como uma tentativa de absorver a maior parte do free float remanescente da subsidiária brasileira utilizando uma moeda considerada valorizada: as ações da matriz espanhola.
Para os acionistas, o principal ponto em comum é que a decisão vai muito além do prêmio oferecido. "Em operações por permuta, o investidor não está simplesmente monetizando o investimento, mas trocando uma empresa por outra. Isso significa mudar a tese de investimento", afirma Tobias Camargo.
O que muda para o acionista em cada caso
A diferença fica clara quando se observa a natureza dos ativos envolvidos. Na operação da Randoncorp, o investidor troca participação em uma holding industrial diversificada, exposta a veículos comerciais, implementos rodoviários, autopeças e serviços financeiros, por participação em uma companhia mais focada no segmento global de reposição e autopeças, a Frasle Mobility. O BTG destaca que as duas empresas possuem perfis bastante distintos de crescimento e valuation, o que torna a decisão menos óbvia do que parece à primeira vista.
No Santander Brasil, por outro lado, os investidores deixam de ter exposição direta a um banco brasileiro para se tornarem acionistas do grupo global Santander por meio de BDRs ou ADSs. "O investidor pode estar trocando um papel com maior potencial de valorização por um ativo com maior segurança, ao sair do risco Brasil", afirma Josias Bento.
Efeitos na liquidez e no free float
Já na Frasle, a entrada de um volume adicional de ações nas mãos da Previ pode, no futuro, contribuir para ampliar o free float e a liquidez dos papéis caso o fundo opte por monetizar parte de sua posição. No Santander, o efeito tende a ser inverso. Analistas destacam que o banco permanecerá listado na B3, mas a redução do free float pode diminuir a liquidez das ações locais, tornando a companhia mais concentrada sob o controle da matriz espanhola.
Um movimento que pode se repetir
Para especialistas, o surgimento de duas operações semelhantes em sequência pode não ser mera coincidência. "Acredito que esse tipo de operação tende a se tornar mais frequente enquanto a Bolsa brasileira continuar negociando com desconto em relação aos fundamentos de muitas empresas", afirma Tobias. Josias compartilha a avaliação e lembra que, além dos preços deprimidos das ações, há escassez de novas ofertas públicas no mercado brasileiro. "O mercado de capitais brasileiro vem diminuindo, principalmente em função do cenário de juros elevados e das incertezas fiscais."
Na prática, as duas operações sinalizam que controladores estão dispostos a aproveitar avaliações consideradas atrativas para reorganizar estruturas societárias sem recorrer a grandes desembolsos de caixa. Para os investidores minoritários, contudo, a principal questão permanece a mesma em ambos os casos: mais importante do que o prêmio oferecido é decidir de qual empresa desejam continuar sócios após a reorganização.
Perguntas Frequentes
O que é uma OPA por permuta?
É uma oferta pública de aquisição em que o pagamento é feito com ações de outra empresa do grupo, em vez de dinheiro. Na B3, Randon e Santander usaram esse mecanismo.
Qual o prêmio oferecido na OPA da Randoncorp?
A oferta atribui valor de R$ 8,52 por ação da Randoncorp, com prêmio superior a 45% sobre a média de negociação utilizada como referência.
Qual o prêmio oferecido na OPA do Santander Brasil?
A oferta prevê prêmio de 15% e tem como alvo aproximadamente os 10% do capital que ainda permanecem em circulação no mercado.
O que muda para o acionista na OPA por permuta?
O investidor troca uma empresa por outra, mudando a tese de investimento. Na Randon, troca a holding diversificada pela Frasle, mais focada em autopeças. No Santander, deixa o banco brasileiro para ser acionista do grupo global via BDRs.
Por que as OPAs por permuta estão aumentando?
Especialistas apontam a Bolsa descontada, com múltiplos abaixo do valor que os controladores enxergam, e a escassez de novas ofertas públicas no mercado brasileiro, em função dos juros elevados e incertezas fiscais.