Frete marítimo pressiona VALE3 e CMIN3: entenda o impacto
O salto no frete marítimo de minério de ferro derruba o preço FOB ao menor nível em oito anos e pressiona a rentabilidade das mineradoras brasileiras. Entenda como VALE3 e CMIN3 sentem o aperto.
O salto no custo do frete marítimo de minério de ferro derrubou o preço FOB ao menor nível em oito anos e comprimiu a rentabilidade dos produtores globais. Na rota Brasil-China, o transporte gira em torno de US$ 40 por tonelada, cerca do dobro da Austrália-China, perto de US$ 20, segundo análise do Goldman Sachs assinada por Marcio Farid, Emerson Vieira e Henrique Marques.
A pressão não é uniforme entre as mineradoras listadas. A CSN Mineração (CMIN3) aparece como uma das mais expostas, enquanto a Vale (VALE3) está relativamente protegida por contratos de frete de longo prazo.
O que explica a disparada do frete capesize
Os fretes do segmento capesize, usado no transporte de grandes volumes de commodities, mais que dobraram em relação à média dos últimos dez anos nas rotas Brasil-China e Austrália-China. O Goldman Sachs atribui o movimento a um desequilíbrio entre oferta e demanda de embarcações, agravado pela alta dos combustíveis marítimos e por restrições operacionais.
Entre os fatores citados estão tufões no Sudeste Asiático, a redução da velocidade dos navios pelo custo maior de combustível, um ciclo concentrado de manutenções obrigatórias e a limitada expansão da frota de capesize desde 2020. No lado da demanda, as exportações de bauxita da Guiné competem diretamente com o minério de ferro pelo uso das embarcações. Segundo o banco, o mercado opera com déficit estimado entre 3 milhões e 5 milhões de toneladas por mês em capacidade de transporte.
Como VALE3 e CMIN3 sentem o aperto
A CSN Mineração embarca entre 40 milhões e 45 milhões de toneladas por ano, tem exposição integral aos preços spot de frete e ainda depende da compra de minério de terceiros para cerca de 30% de seus volumes comercializados. Já a Vale tem de 90% a 95% dos volumes transportados em 2026 cobertos por contratos de frete com tarifas inferiores às atuais, e aproximadamente 80% dos embarques de 2027 também protegidos. Os contratos de longo prazo da companhia cobrem cerca de 75% dos embarques.
O relatório afirma que a situação já afeta algumas empresas. Segundo verificações do banco junto ao setor, a Usiminas (USIM5) reduziu sua produção de minério em cerca de 30%, enquanto outras mineradoras de menor porte avaliam desacelerar operações devido à pressão sobre as margens. O banco estima que entre 50 milhões e 70 milhões de toneladas anuais de minério produzido no Brasil operam atualmente próximo do ponto de equilíbrio econômico.
Para o Goldman Sachs, a combinação de minério a US$ 100 por tonelada e frete próximo de US$ 40 por tonelada não parece sustentável para milhões de toneladas que dependem do mercado spot. A expectativa é que o mercado de fretes continue apertado pelos próximos anos: a entrega de novos navios deve acelerar em 2027, mas uma expansão mais relevante da oferta é esperada apenas a partir de 2028. Cerca de 510 navios capesize, equivalentes a aproximadamente 25% da frota mundial, devem entrar em estaleiros para manutenção em 2026.
O banco avalia que oferta e demanda por embarcações dificilmente voltarão ao equilíbrio antes de 2028 ou 2029. Fretes estruturalmente mais elevados tendem a reduzir a competitividade relativa do minério brasileiro frente ao australiano. Ainda assim, o Goldman Sachs não acredita que a disparada dos fretes seja suficiente para elevar os preços do minério no curto prazo, diante de produção fraca de ferro-gusa na China, estoques elevados nos portos e margens pressionadas das siderúrgicas chinesas. O principal gatilho para uma recuperação mais consistente seria a redução da produção de mineradoras de maior custo.